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Por que meu filho ainda não sabe ler e escrever?








Mais um ano letivo se inicia, e com ele, muitos sonhos e projetos se renovam. Para os alunos que já freqüentam a escola há algum tempo, é sempre a promessa de um ano melhor, com mais atenção, com mais dedicação e notas melhores. Promessa nem sempre cumprida, diga-se de passagem. Para os que estão iniciando numa escola nova, é a expectativa de novos professores, novos colegas, novas caras, novas cobranças e o medo de não se adaptarem ao novo. Mas para aqueles que estão ingressando pela primeira vez na escola básica, a famosa primeira série do ciclo básico, é um mundo novo, com as expectativas redobradas e o sonho de finalmente aprender a ler e escrever. E é sobre esse sonho/pesadelo que quero falar aqui, porque a primeira série e todo o processo de alfabetização da criança tornam-se para alguns pais e filhos motivo de angústia e desespero, quando deveria ser um momento de alegria e de puro prazer.
Não existe nenhuma lei nem nenhum decreto que determine que a criança deva aprender a ler e a escrever na primeira série do ciclo básico, no entanto, por um consenso social, ficou oficializado que era na primeira série que isto deveria acontecer. Possivelmente, esta obrigatoriedade é ainda herança dos tempos em que a alfabetização era iniciada na primeira série, quando a professora, de fato, ensinava o bê-a-bá, e o que se fazia, de fato, era juntar bê mais a com o auxílio da cartilha, onde havia uma série de frases prontas, sempre seguindo a ordem alfabética.





Na ansiedade de verem seus filhos lendo e escrevendo o mais cedo possível, alguns pais acabam transformando esse momento tão rico e tão difícil para a criança num pesadelo de cobranças, de queixas e de reclamações, que respingam por todos os lados, desde a própria criança até a professora, atingindo a escola, o método de ensino, o material pedagógico, etc, gerando uma angústia que muito atrapalha o processo, que por si já é extremamente difícil para a criança. Então, antes que a ansiedade aflore e que as queixas comecem a pipocar por todos os lados, vamos esclarecer alguns pontos sobre o que, realmente, é aprender a ler e escrever


Com as descobertas da Psicogênese da Língua Escrita, ou melhor, com a descoberta de como se dá o processo de aquisição da língua escrita, muita coisa mudou na concepção do que é alfabetização. A primeira delas é que ler e escrever são um processo de construção interna (assim como todos os processos de aprendizagem humana ocorrem de dentro para fora do sujeito) que começa bem antes de a criança entrar na escola e vai muito além da primeira série.

Começa quando ela se dá conta de que existe uma língua que se fala e uma língua que se escreve, e que escrever é transformar a língua falada num código gráfico simbólico, o que exige uma elaboração mental extremamente complexa. Para dominar esse novo código ela precisará de alguns anos. Mas esse processo é longo e difícil para a criança, pois não é resultado da acumulação de informação sobre sílabas, alfabeto e letras, e sim a transformação das hipóteses que ela constrói em seu esforço para compreender o que é para quê serve e como funciona a escrita. Sendo uma construção absolutamente pessoal, individual, interna e intransferível, é, portanto, impossível para alguém determinar com precisão em que momento ela acontecerá. Ao contrário do se pensava até há algum tempo, que escrever era juntar letras e sílabas, e que ser alfabetizado era saber escrever o próprio nome, hoje só é considerado efetivamente alfabetizado o sujeito que:






a) Compreende as funções da língua escrita na sociedade (para quê serve a escrita)
b) Compreende as diferenças entre desenho e língua escrita (grafismo figurativo e grafismo simbólico)
c) Apropriou-se do código lingüístico a ponto de poder usá-lo para comunicar-se através dele
d) Consegue ler e levantar questões diante de um texto
e) Percebe que a escrita é importante na escola porque é importante fora dela.O que se sabe é que crianças que têm mais acesso a diversos portadores de textos (livros, revistas, jornais, gibis, rótulos de embalagens, etc); que convivem mais com situações de leitura (pessoas lendo ao seu redor) e ouvem pessoas lerem para elas, aprendem a ler e escrever com mais rapidez e facilidade. 


Crianças que convivem em lares de pessoas letradas e que fazem uso constante da escrita, aos dois anos de idade já brincam de escrever e rabiscam o papel dizendo que "estão escrevendo". Isto significa que já compreenderam que existem outras formas de comunicação além da fala, e que uma delas é a escrita.


 Com o tempo transformarão esses "rabiscos" em escrita de verdade. Mas para isso precisarão de nosso apoio, de nossa compreensão e de nosso encorajamento. Cobranças, queixas e críticas não ajudam ninguém a aprender nada.Se quisermos que nossos filhos aprendam de verdade, o melhor a fazer é lermos muitas histórias, oferecermos muitos livros de histórias infantis, muitos gibis, muitas revistas e enchermos a casa de lápis de cor e de papel para que possam rabiscar e desenhar à vontade suas próprias idéias.


 E um dia, quando menos esperamos, no café da manhã eles nos surpreendem lendo Mar-ga-ri-na ou escrevendo num pedaço de papel com uma letra desafiadora e mal equilibrada: u meu pai e legau. Nesse dia, damos a mão à palmatória e dizemos: Muuuuuuuuiiito bemmmmm!!! É tudo o que se deve dizer a quem se esforçou tanto par achegar até aí. Com o tempo eles perceberão que a nossa língua tem muito mais dificuldades do que se possa imaginar. Mas isto é outra história que fica para outra vez. Por hoje, basta comemorar.
     


Cybele Russi é Pós-graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional                                                                                                                                   


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6 comentários:

joselito bortolotto disse...

Ok. Apesar do post duplo, só comentar uma vez .... isso que é vontade de escrever hem??? Mas, falando sério, realmente acho que o maior problema são os pais e a ansiedade ..... acabam dificultando ainda mais algo que poderia e é muito natural.

Luisa L. disse...

Olá Joicinha!

Eu penso que a ansiedade dos pais pode afectar o desenvolvimento da criança. No entanto acredito que o ambiente em que as crianças vivem, tem alguma influência sobre elas. Mas não é decisivo. Eu tenho três filhos, todos nasceram no meio de livros e nem todos têm o gosto pela leitura igualmente desenvolvido. No entanto todos com 5 anos já liam e identificavam palavras simples. As crianças também têm a sua própria personalidade e capacidade para escolher.

Muito bom o texto!

Beijinhos
Luísa

eu disse...

ola sou professora alfabetizadora gostei muito da postagem, acredito que ansiedade da criança e os pais dificulta a aprendizagem e o desenvolvimento da leitura. Minha netinha com 4 aninhos estudava em uma escola tradicional e como em sua sala tinha alunos com 5 e até seis anos os quais já sabia ler ela chorava porque ainda não estava lendo e dizia "eu não consigo"Tivemos que trabalhar esta ansiedade atéque com 5 anos ela começou a ler. a paz

Dri Viaro disse...

Bom dia, chegou fim de semana!!

Por isso lhe desejo que vc fique com os seus, e aproveite totalmente estes 2 dias de folga.

bjssss

Tia Mi Artes disse...

O problema aqui em casa é a avó que diz que meu filho tem que saber ler, eu fico um pouco preocupada porque ele tem 7 anos e não quer saber de escrever. Ele está fazendo muitos exames e indo na neuropediátra. Sei que ele é inteligente e fala super bem, mas se interessa por pouco tempo nas atividades e as vezes chora por se cansar nas atividades escolares.
Mas o interessante é que ele escreve letras no computador e no quadro, mas quando chega na hora de colocar no papel...ai que dificuldade. Ele é muito energico e pula o dia todo, não sussega e é muito feliz, vive cantando inventando música, pega a guitarra e fica fazendo barulho. Sei que não é ético falar isso mas ele é apto a fazer muitas outras coisas só não gosta de escrever!! E olha que ele vive no meio de papel e livros que temos em casa. Meu outro filho de 15 anos gostava de escrever, tinha uma letra linda, depois ficou um garrancho e na 5ª série eu tinha que ler os livros de literatura para ele fazer os resumos e provas. Fiquei um pouco preocupada e levei ele na psicóloga e ela disse que não tinha nada, já na escola disseram que ele tinha défict de atenção. Hoje vi que me preocupei por nada, pois ele compõe músicas e fez uma história para o menino maluquinho, onde o Ziraldo desenhoupara ele.
Resultado!!! Meu filho tem um livro e está compondo músicas para a banda da igreja.

adrea disse...

ola,
estou muito preocupada com meu filho, ele tem 7 anos esta na primeira serie mas ja estamos no final do ano e ele aina nao sabe juntar as letras pra formar TA-TE-TE-TI-TO-TU, e assim por diante, ja falei com a professora mas ela diz ser normal, mas fico preocupada se isso nao seria pela escola tbm, pq minha sobrinha esta em uma estadual e sabe ler tropeçando mas le, e outras crianças tbm que sao de estadual e sabem, tenho duvidas se é pq onde meu filho esta é um colegio municipal que nao se empenha, gostaria de saber se alguem por favor poderia me dar uma luz.
obrigada.

 

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