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'Favola' e o texto do conto 'Transformações' de Hermann Hesse.

Como todos sabem, adoro musica e sou apaixonada pelo idioma italiano. Hoje resolvi falar da musica composta por Eros Ramazzotti "Favola".
A letra desta música, lançada no álbum Tutte Storie é considerada uma verdadeira obra prima, inspirada num livro também chamado Favola, de Herman Hesse, e construída de forma magistral.

Hermann pra quem não sabe nasceu no seio de uma família muito religiosa, filho de pais missionários protestantes (pietistas, como é típico da Suábia) que tinham pregado o cristianismo na Índia. Estudou no seminário de Maulbronn, mas não seguiu a carreira de pastor com era da vontade de seus pais. Tendo recusado a religião, ainda adolescente, rompeu com a família e emigrou para a Suíça em 1912, trabalhando como livreiro e operário. Acumula então sólida cultura autodidata e resolve dedicar-se à literatura.

Travou contato com a espiritualidade oriental a partir de uma viagem à índia em 1911 e com a psicanálise por meio de um discípulo de Carl Gustav Jung, em decorrência de uma crise emocional causada pela eclosão da Primeira Guerra Mundial. Estas duas influências seriam decisivas no posterior desenvolvimento da obra de Hesse.

Procurou construir sua própria filosofia, a partir de sua revolta pessoal (Peter Camenzind, 1904) e de sua interpretação pessoal das correntes filosóficas do Oriente (Sidarta), e em especial em O Lobo da Estepe (1927), que é também uma crítica contra o militarismo e o revanchismo vigente na sua terra natal depois da Primeira Guerra Mundial. Esta postura corajosa o fez bastante popular na Alemanha do pós-guerra, depois da desnazificação.

Em 1946 ganhou o Prêmio Goethe e, passados alguns meses, o Prêmio Nobel de Literatura.

( primeiro o verso da música 'Favola' e depois o texto do conto 'Transformações' de Hermann Hesse).


raccontano che lui si trasformò / 

contam que ele se transformou
in albero e che fu /

 em árvore e que foi
per scelta sua che si fermò / 

por escolha sua que se fixou
e stava lì a guardare / 

e estava ali a olhar
la terra partorire fiori nuovi / 

a terra parir flores novas

"(...)Pois muitas vezes desejara ser árvore, porque as árvores lhe pereciam plenas de paz, força e dignidade.
Piktor transformou-se em uma árvore. Suas raízes cresciam terra adentro, ele elevava-se às alturas, folhas e ramos emergiam de seus membros. E com isto ele ficou muito satisfeito. Suas fibras sedentas sugavam no fundo da terra fresca, e balouçava suas folhas alto no azul."





Così /
 Assim
fu nido per conigli e colibrì /

 foi ninho para o coelho e o colibrí
il vento gl'insegnò i sapori /

 o vento lhe ensinou os sabores
di resina e di miele selvatico / 

de resina e de mel selvagem
e pioggia lo bagnò / 

e chuva o banhou

"(...)Besouros moravam em sua casca, a seus pés moravam lebres e ouriços, e os pássaros habitavam seus ramos."

La mia felicità - diceva dentro se stesso - / 
A minha felicidade - dizia dentro de si mesmo
ecco... ecco... l'ho trovata ora che / 
aqui está!...aqui está!... a encontrei agora que 
ora che sto bene / agora que estou bem
non ho più bisogno di nessuno / 
não tenho mais necessidade de ninguém
ecco la bellezza della vita che cos'è /

 eis! a beleza da vida que coisa é

"A Árvore Piktor estava feliz, e não contava os anos que passavam . Passaram-se muitos, muitos anos, antes de ele notar que sua felicidade não era perfeita. Só lentamente aprendeu a ver com olhos-de-árvore. Por fim, conseguiu ver, e ficou triste.
Viu que ao redor dele, no Paraíso, a maioria das criaturas se transformava freqüentemente, sim, tudo fluía em uma torrente mágica de eterna metamorfose. Viu flores se tranformarem em pedras preciosas, ou saírem voando como pássaros cintilantes. Viu a seu lado muita árvore sumir de repente: uma derreteu-se e tornou-se fonte, outra se tornara um crocodilo, outra, agora, peixe, nadava, indo embora, alegre e fresca, cheia de gozo, com vivacidade, executando novos jogos em novas formas. Elefantes trocavam de roupa com rochedos, girafas assumiam a forma de flores.

Mas ele, a Árvore Piktor, era sempre a mesma, não podia mais se transformar. Desde que reconheceu isso, sua felicidade desvaneceu-se; começou a envelhecer, assumindo cada vez mais aquela postura cansada, grave e preocupada, que se pode observar em muitas árvores velhas. Também em cavalos, pássaros, pessoas e todas as criaturas, pode-se ver isso diariamente. Quando não possuem o dom da transformação, com o tempo decaem em tristeza e mágoa, e perdem a beleza."


Ma un giorno passarono di lì /
 Mas um dia passaram por ali
 due occhi di fanciulla /
 dois olhos de menina
due occhi che avevano rubato al cielo /

dois olhos que tinham roubado do céu
un pò della sua vernice /

 um pouco da sua cor
E senti tremar la sua radice /
 E sentiu tremer a sua raíz

"Certo dia, errava por aquela região do Paraíso uma jovem de cabelos louros e vestido azul. Cantando e dançando a loura corria entre as árvores, e até então nunca pensara em desejar o dom da transformaçao.
Muito macaco astuto sorria atrás dela, muito arbusto tocava-a delicadamente com um ramo, muita árvore lhe lançou uma flor, uma noz, uma maçã, sem que disso ela se apercebesse.



Quando a Árvore Piktor avistou a jovem, foi tomada de uma grande saudade, um desejo de felicidade, como jamais sentira. E ao mesmo tempo caiu em profunda reflexão, pois sentia que seu próprio sangue lhe dizia:
- Pensa bem! Lembra-te nesta hora de toda a tua vida, encontra o sentido disso tudo, ou será tarde demais, e nunca mais terás a felicidade.
Ele obedeceu. Lembrou-se de toda a sua origem, seus anos como homem, sua viagem ao Paraíso, e especialmente daquele instante antes de se tornar árvore, aquele extraordinário momento em que tivera nas mãos a pedra encantada. Naquela ocasião, como tinha a escolha qualquer transformação, a vida ardera nele como nunca! Pensou no pássaro que aquela vez rira, e na árvore com Sol e Lua; e pressentiu que naquela ocasião perdera algo, esquecera algo, e que o conselho da Serpente não fora bom.
A jovem ouviu um rumor nas folhas da Árvore Piktor, ergueu os olhos para ela e sentiu, com súbita dor no coração, novos pensamentos, non anseio, novos sonhos agitando-se em seu próprio interior. Atraída por uma força desconhecida, ela se sentou debaixo da árvore, que lhe parecia solitária, solitária e triste, e não obstante bela, comovente e nobre em sua muda tristeza; a canção de sua copa, em suave sussurro, soava fascinando-a. Ela recostou-se no áspero tronco, sentiu a árvore estremecer fundo, sentiu o mesmo frêmito no próprio coração. O coração lhe doía singularmente, sobre o céu de sua alma deslizavam nuvens, lentamente lágrimas pesadas corriam de seus olhos. O que era aquilo? Por que precisava sofrer tanto? Porque o coração anelava rebentar o peito, e fundir-se nela, e com ela, com ele, o belo solitário?

A árvore estremeceu de leve até as raízes, tão fortemente reunia em si todas as forças vitais, ao encontro da jovem, no ardente desejo de união. Ah, fora ludibriado pela Serpente, exilando-se para sempre, confinando-se solitário em uma árvore! Ah, que cego, que tolo fora! Então não soubera de nada, estivera tão alheio ao segredo da vida?(...) "






Quanto smarrimento d'improvviso dentro sè /
 Quanta perda imprevista dentro de si
quello che solo un uomo senza donna sa che cos'è /

 aquilo que só um homem sem mulher sabe que coisa é
e allungò i suoi rami /

 e alongou os seus ramos
per toccarla /

 para tocá-la
Capì che la felicità non è mai la metà / 

Entendi que a felicidade não é nunca a metade
di un infinito / 

de um infinito
Ora era insieme luna e sole /

 Agora estavam juntos lua e sol
sasso e nuvola / pedra e nuvem
era insieme riso e pianto / 

estavam juntos riso e choro
o soltanto /

 ou apenas
era un uomo che cominciava a vivere /

 era um homem que começava a viver
ora / agora
era il canto che riempiva /

 era o canto que preenchia
la sua grande / 

a sua grande
immensa solitudine / 

imensa solidão
era quella parte vera /

 era aquela parte verdadeira
che ogni favola d'amore /

 que toda fábula de amor
racchiude in sè /

 encerra em si
per poterci credere /

 para podermos crer

"(...)Não, bem que ele o sentira e adivinhara aquela vez, obscuramente - ah, e com tristeza e profunda compreensão pensava ele agora na árvore, que era a um tempo Homem e Mulher! (...) A bela foi arrebatada, tombou e uniu-se à árvore, emergiu do seu tronco como um vigoroso ramo novo, e rapidamente cresceu até o cimo.
Agora estava tudo bem, o mundo estava em ordem, só agora fora encontrado o Paraíso. Piktor já não era uma árvore velha e triste, agora cantava bem alto, (...)
Estava transformado. E porque dessa vez alcançara a metamorfose verdadeira, eterna, porque passara de uma metade ao Todo, a partir dessa hora podia transformar-se o quanto quisesse. O fluido mágico do vir-a-ser circulava continuamente pelo seu sangue, e ele participava eternamente da incessante Criação.
Tornou-se Cervo, tornou-se Peixe, tornou-se Homem e Serpente, Nuvem e Pássaro. Mas em cada forma era um todo, era um par, tinha Lua e Sol, tinha em si Homem e Mulher, e como rios gêmeos correu pelos países, e pairou no céu como uma dupla estrela."




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1 comentários:

Paolo Pascoli disse...

Adorei o Blog!
a quem interessar possa, segue o link para o video original da cancao.

http://www.youtube.com/watch?v=tbaWcWOAbkc&feature=related



Paolo Pascoli

 

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